Todos as tardes Ana Bela observava seu jardim pela janela de seu quarto. Para uma garota de nove anos, existiam atividades mais dinâmicas, mas essa era uma das muitas características que a diferenciavam das demais crianças. Nas suas observações, percebeu uma borboleta, bem peculiar, pois ela sempre vinha no mesmo horário, no finzinho da tarde, quando a luz do sol se transforma em riscos alaranjados sob as nuvens.
A borboleta tinha a cor azul macio, que se transformava em verde vivo, até chegar o rosa saboroso, com bordas delineadas no tom preto sombrio. Nas asas haviam pequenos riscos também, mas, pela distância, Ana Bela não conseguia decifrá-los. A visitante trazia consigo um ar de serenidade e mistério, e espevitada como era, já não agüentava mais desconhecer de onde vinha e pra onde ia aquele par de asas coloridos. Então, como uma idéia súbita, a garotinha resolveu aguardar a visita da borboleta no jardim.
Lá veio ela, no horário de costume, sobrevoando o jardim e logo seguindo viagem. Neste momento Ana começou a seguir sua curiosidade, percebeu que estava se direcionando para o quintal de sua casa, até então limite de passeio. Sua mãe havia lhe orientado não avançar a fronteira do seu quintal com descampado além, mas nada disso lembrou, apenas pensava em não perder de vista o vôo da borboleta.
Seguindo e caminhando, já tinha passado o descampado e agora seguia uma trilha em que a mata crescia ao poucos, verticalmente, e quanto mais altas ficavam as árvores, mais fechada tornava-se a trilha. E a borboleta prosseguia adiante a voar. Os raios solares já não eram mais vistos, só se percebia as sombras dos braços arvorais, e de tão silencioso o local, até as batidas frágeis das asas da borboleta eram ouvidas. Quando de súbito a trilha é interrompida para dar lugar a um imenso pomar.
[irá continuar...]